domingo, 25 de abril de 2010

Homens maus fazem o que homens bons sonham - Sugestão de Leitura

O NEUROtícias começará a sugerir algumas leituras a partir de agora, no mínimo uma indicação por mês com resenha , estaremos publicando em nosso blog.

O indicação desse mês é o fantástico livro de Robert I. Simon. Dr Simon é  psiquiatra forense, professor de Psiquiatria Clínica, diretor do Programa de Lei e Psiquiatria em Georgetown na University School Medicine, Washington, Estados Unidos. 

Em "Homens maus fazem o que homens bons sonham", Simon disseca a mente de criminosos perturbados por seus dêmonios internos frutos de seu passado traumático muitas vezes associado à forte propensão genética, dependência química e exclusão social.

Com narrativa densa e uma atmosfera de tensão e drama, o autor consegue trazer a tona todo drama vivenciado por psicopatas e  suas vítimas descrevendo as cenas com toda a acidez e terror psicológico sofridos por elas.

Simon é implacável quanto ao diagnostico social em seu livro, haja visto que o próprio título remete a tese central de seu argumento. O autor defende que Homens maus fazem o que homens bons sonham  e que basta os "genes certos na hora certa" para acordarmos o psicopata que há dentro de nós.

É um belo livro onde somos, a cada parágrafo, desafiados quanto ao nosso caráter, pulsões, vontades e desejos, tudo isso numa narrativa, apesar de pesada, muito atrativa e com leitura fluente. 

O livro apresenta os estudos realizados pelo psiquiatra em casos reais, com análise dos desvios de comportamento, um olhar sobre os fatores protetores que garantem a “normalidade” da maioria de nós e uma reflexão sobre o que significa ser humano. O autor destaca que a violência pessoal é tema presente em todas as religiões e durante a história da humanidade. Traz ainda dados alarmantes como que a cada 1,3 min uma mulher é estuprada nos EUA, entre outros.

Essa obra é uma leitura obrigatória para os estudiosos de neurociência comportamental, terapeutas clínicos, profissionais da área da saúde ou até mesmo para curiosos no assunto.

Agora uma coisa é fato: não é um livro de fácil "digestão", algumas cenas  são descritas com bastante detalhe e não são recomendadas para pessoas que não suportam facilmente descrições de cenas violentas.


Livro: Homens maus fazem o que homens bons sonham
Autor: Robert I. Simon
Formato: 16x23
Páginas: 340
Editora: Artmed 
Faixa de Preço: R$ 49 - 69 (Buscapé)
 

domingo, 4 de abril de 2010

Onde está nossa moral?

Julgamentos morais são essenciais para vivermos em sociedade. Nós perdoamos danos intencionais ou acidentais e condenamos tentativas de prejudicar outras pessoas baseados nessa capacidade. Alguns trabalhos científicos têm demonstrado o papel importante de uma estrutura cerebral chamada córtex pré frontal ventromedial em desempenhar esse papel. Pesquisadores do grupo coordenado pelo renomado neurocientista português, Antonio Damásio (Brain and Creativity Institute and Dornsife Center for Cognitive Neuroimaging, University of Southern California, Los Angeles), publicaram num dos mais importantes periódicos de neurociências, Neuron, um trabalho que vem para trazer luz às bases fisiológicas da moral humana. Trabalhos anteriores já haviam relacionando essa estrutura cerebral com nossa capacidade de julgamento.

Liane Young do Massachusetts Institute of Technology em Cambridge, e seus colegas de trabalho pediram à nove pacientes com lesões no córtex pré frontal ventromedial (CPFVM -Figura) para avaliar vários cenários sobre a sua legitimidade moral. Os cenários retratados eram de uma pessoa tomando uma conduta neutra ou perigosa para outra pessoa, como por exemplo, dar-lhe um veneno que lhe leve a morte. Quatro tipos de avaliação aos pacientes foram tomadas como parâmetro: sem perigo (ação neutra), perigo acidental, falha ao perceber o perigo e sucesso ao perceber o perigo. Os pacientes com lesão no CPFVM se mostraram mais permissivos á falha no julgamento moral do problema apresentado pelos pesquisadores quando comparados com pacientes normais ou com outros tipos de lesões cerebrais. Estes resultados destacam o papel crucial do CPFVM no processamento do julgamento moral em nossa espécie.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Reescrevendo memórias

No dia 7 de Janeiro no Vol 463 da Nature foi publicado um trabalho que pode dar novos rumos as técnicas de tratamento à memórias mal adaptativas, como por exemplo um trauma. Pesquisadores do Center for Neural Science do departamento de psicologia das universidades de New York e Texas apresentaram uma técnica não invasiva de manipular memórias de medo baseando-se no fenômeno da Reconsolidação da memória.

A reconsolidação é um fenômeno no qual as memórias ao serem evocadas (lembradas) se tornam lábeis novamente, isto é, possíveis de sofrer modificações. Anteriormente à descoberta desse fenômeno acreditava-se que as memórias após consolidadas não poderiam ser modificadas e que apenas novas informações eram acrescentadas em paralelo. Em animais já é possível encontrar diversos procedimentos experimentais nos quais pode-se manipular farmacologicamente esta fase da memória resultando na impossibilidade de recuperar essa informação em momentos posteriores, sugerindo que elas foram apagadas ou persistentemente inibidas.

Nesse estudo os pesquisadores se basearam em trabalhos anteriores realizados em ratos no qual os animais eram expostos a um estímulo breve (recordatório) e logo em seguida eram conduzidos para uma seção de extinção da memória (ver abaixo significado de extinção). O resultado desse trabalho foi que os animais eram incapazes de apresentar respostas de medo após passarem por uma sessão de extinção, no entanto, somente quando a sessão acontecia durante o período da reconsolidação (em torno de 6 h). Com humanos não foi diferente. Estes resultados demonstram o papel adaptativo da reconsolidação e como uma janela de oportunidade para reescrever as memórias emocionais, sugerindo que uma técnica não-invasiva pode ser usada com segurança em seres humanos para impedir o regresso do medo.

Para Saber Mais:



domingo, 13 de setembro de 2009

Neurônios em Cores

Em novembro de 2007 cientistas, coordenados pelo Professor Jeff W. Lichtman, do Department of Molecular and Cellular Biology (Departamento de biologia molecular e celular) da universidade de Harvard nos Estados Unidos, publicaram na revista Nature (Vol 450| 1 Novembro 2007) um trabalho que chamou a atenção da comunidade científica. Eles desenvolveram duas estratégias genéticas para produzir camundongos transgênicos que expressam proteínas fluorescentes. Chamado de Brainbow (trocadilho com a palavra inglesa ‘rainbow’ que significa arco-íris) os camundongos fazem jus ao nome dado a eles, pois, após a injeção de um fator de transcrição protéico (o que estimula a expressão dos transgenes nos animais), o cérebro dos camundongos se transforma num verdadeiro arco-íris. Isso ocorre graças à técnica desenvolvidas pelos cientistas que conseguiram combinar randomicamente genes que expressam proteínas fluorescentes quando ativados de modo que as combinações randômicas conseguiram gerar um espectro de 90 cores!
A nova técnica tem tudo para ser promissora e trazer grandes avanços para neurociências, na visualização de sinapses e para melhor entendimento do próprio mecanismo de plasticidade sináptica.
O primeiro passa já foi dado. Agora é só esperar que outro grupos comecem a utilizar aprimorar a técnica para que possamos, cada vez mais desvendar os mistérios do cérebro.
 
PARA SABER MAIS:
Nature:
Transgenic strategies for combinatorial expression of fluorescent proteins in the nervous system
Jean Livet, Tamily A. Weissman, Hyuno Kang, Ryan W. Draft, Ju Lu, Robyn A. Bennis, Joshua R. Sanes & Jeff W. Lichtman
Algumas imagens ilustrando a técnica:

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Apagando memorias aversivas!

Foi publicado essa semana num dos periódicos científicos de maior prestigio internacional, Science, um elegante trabalho que mostra um possível alvo para apagar memórias aversivas. Os grupos de pesquisadores de três universidades que assinam o trabalho: Friedrich Miescher Institute for Biomedical Research, Suíça; Department of Molecular & Cellular Biology,; Cellular Biology, Harvard University, EUA; e Neurocentre Magendie, da França.

O estudo demonstra que é possível "apagar" memórias aversivas mexendo-se em moléculas da matriz extracelular. A matriz extracelular é uma estrutura que une as células dos animais e que é composta de colágeno, proteoglicanos, glicoproteínas e integrinas, essa massa que une as células têm sido demonstrada como importante para a plasticidade sináptica durante a adolescência e á idade adulta. Através de um fenômeno mnemônico chamado de extinção, os cientistas conseguem produzir uma nova memória que é capaz de inibir a memória aversiva inicial (veja o esquema). Em animais jovens foi demonstrado que quando ocorre o fenômeno da extinção (uma nova memória que inibe a expressão de outra) a memória original não volta a se expressar, sendo assim, ela é enfraquecida e logo depois apagada. A responsável por essa capacidade de apagar memórias seria a falta de estruturação da matriz extracelular, que nos pequenos está ainda se estruturando. A partir dessa observação os pesquisadores hipotetizaram se seria possível tornar a matriz extracelular “jovem outra vez” podendo assim apagar memórias traumáticas. A hipótese deles estava correta! Injetando uma droga que desestabiliza a matriz extracelular em uma região do cérebro relacionada com emoções e memórias aversivas (a amígdala) eles foram capazes de,em um rato adulto, repetir o mesmo fenômeno observado em animais jovens, isto é, apagar uma memória traumática.
Esse trabalho traz uma nova luz para o tratamento de doenças relacionadas a memórias negativas, como por exemplo, Transtorno do estresse pós-traumático e até mesmo à dependência química.
PARA SABER MAIS:
Wikipédia:
Science:

Perineuronal Nets Protect Fear Memories from Erasure

Nadine Gogolla, Pico Caroni, Cyril Herry
Science 4 September 2009: 1258-1261




sexta-feira, 21 de março de 2008

BDNF é essencial para manutenção de memórias de Longa Duração

Em um elegante experimento cientistas demonstraram que a molécula BDNF (Brain-derived neurotrophic factor) é essencial para a manutenção de memórias duradouras.
Ratos foram treinados na tarefa de esquiva inibitória** (modelo clássico para o estudo de memória) e após o treino receberam infusão de anisomicina (ANI) - inibidor de síntese protéica - o que faz com que os animais não produzam nenhuma proteína e , consecutivamente, nao apresentam memória, visto que para a formação de uma memória a sintese protéica é necessária - conforme inúmeros trabalhos anteriores. A injeção concomitante de ANI com a molécula BDNF reverteu completamente o efeito amnésico da ANI em animais testados (momento da lembrança da tarefa) sete dias depois de dia do treino (aprendizagem da tarefa), no entanto a injeção de BDNF não reverteu a amnésia causada pela inibição da sintese protéica em animais testados 2 dias depois do treino.
O BDNF se mostrou necessário para manutenção de memórias duradouras e não para memória nao tão duradouras.

Em outro experimento do mesmo trabalho os animais receberam dois treinos diferentes um mais forte (choque me 0,7 mA) e outro mais fraco (choque de 0,4 mA). nesse caso os animais que não receberam BDNF esquecem logo da tarefa , em 4 dias, e os animais que receberam BDNF mantiveram a memória intacta por 7 dias, ou mais (o estudo nao explorou se a memória da tarefa persistiu por mais tempo ainda).
O estudo publicado na revista PNAS, traz mais uma grande contribuição para o entendimento da formação de memórias de longa duração e a molécula BDNF pode ser um alvo para o entendimento de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson.
Outros experimentos foram realizados pelo grupo e estão disponíveis no material complementar
da revista PNAS.

PARA SABER MAIS:

**Esquiva inibitória: é um clássico experimento feito para o estudo da memória, principalmente com ratos. consiste em uma caixa com grades de metal e uma plataforma elevada que não esta em contato com a grade. O animal é colocado na plataforma e após descer com as 4 patas ele recebe um choque, esse procedimento se faz na sessão de treino. No dia anterior, ou conforme seja o desenho experimental desejado, se faz o teste com o animal, no qual ele , novamente, é posicionado na plataforma exatamente como o treino porem sem receber o choque novamente.
O parâmetro medido nesse tipo de experimento é o tempo de permanência na plataforma - local seguro livre de choque, entre os dias de treino vs. teste. Ou seja, se o animal permanecer mais tempo no dia do teste sobre a plataforma do que no dia do treino significa que houve o aprendizado da tarefa.

Wikipédia:


PNAS:

BDNF is essential to promote persistence of long-term memory storage
Pedro Bekinschtein, , Cynthia Katche, Leandro Slipczuk, Janine I. Rossato, Andrea Goldin, Ivan Izquierdo,Jorge H. Medina


domingo, 17 de fevereiro de 2008

Melatonina, peixes e memória



Em um estudo publicado na revista Science, cientistas da universidade de Houston do Departamento de Biologia e Bioquímica, demonstraram que a melatonina (para saber mais sobre a molécula veja links abaixo do texto) pode prejudicar a formação de memórias.

O estudo realizado com peixes ornamentais  (zebrafish) de ciclo biológico ativo diurno, no qual as memórias são melhor formadas durante o dia. O tratamento com melatonina durante o dia mimetiza os déficits cognitivos causados pela noite em vigilia ao passo que treinamento durante a noite, após luz constante , melhora dramaticamente a formação da memória noturna e reduz os níveis de melatonina.

Ao tratar os animais com uma molécula Luzindole ou K-185 - bloqueadora do receptor de melatonina) os animais tiveram uma expressiva melhora na formação de memórias.
o uso da melatonina exógena em humanos alteraria os ritmos biológicos e diminui a eficiência do processamento de memórias no período do sono noturno.

PARA SABER MAIS:


Wikipédia:

Science:

Melatonin Suppresses Nighttime Memory Formation in Zebrafish
Oliver Rawashdeh, Nancy Hernandez de Borsetti, Gregg Roman,* Gregory M. Cahill

Link para o artigo